O protesto: Constituição, excessos, cortina de fumaça

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Salve nação tricolor.

Diz a Constituição brasileira:

“Todos podem reunir-se pacificamente, sem armas, em locais abertos ao público, independentemente de autorização, desde que não frustrem outra reunião anteriormente convocada para o mesmo local, sendo apenas exigido prévio aviso à autoridade competente”. (artigo 5º, inciso 16).

Assisti sábado pela manhã, no CT da Barra Funda, local de treinamentos do São Paulo, o cumprimento de diversas premissas do direito ao protesto. Não existiam armas, não era necessária a autorização, pois nada estava marcado para o mesmo local (avenida Marquês de São Vicente), o SPFC tinha conhecimento prévio, pela divulgação das organizadas. Nada foi feito às escondidas, personalidades, jornalistas, blogueiros, comunicaram presença nas redes sociais. O próprio São Paulo FC solicitou reforço de segurança, que estava presente sim, ao ato.

Sobre o famoso ator Henri Castelli, que o SPFC diz pretender processar, pelo fato de ter conclamado a torcida para participar do protesto, vale citar um editorial de junho de 2013, do periódico Cruzeiro:

“Não está entre as prerrogativas das autoridades usar a Polícia Militar ou a Guarda Civil para tentar silenciar as vozes discordantes… é imprescindível que o poder político reveja a orientação dada às forças de segurança, para que só sejam coibidos, de maneira profissional e focada – com a devida identificação e prisão dos autores -, os atos de depredação e vandalismo, jamais o direito constitucional de se reunir e se manifestar”.

Um pouco mais da nossa Carta Magna, referente não somente à Castelli, mas a todo são-paulino que expressa sua indignação, seja onde for:

“Art.5º: Todos são iguais perante a lei, sem distinção de nenhuma natureza, garantindo-se aos brasileiros e estrangeiros residentes no país a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e a propriedade, nos termos seguintes: …

IX – É livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença”.

Portanto, baseado na lei, amparado pela liberdade de expressão de um país que não é ditatorial (muito menos um clube de futebol), torcedores são-paulinos protestaram no Centro de Treinamento. De abastados a povão, de gente simples a letrados, diferentes entre si, mas com a mesma razão e sentimento: o São Paulo FC.

Segue o relato do que vi:
A ação ocorria na frente do CT são-paulino e somente do lado de fora, até que todas as torcidas organizadas e demais torcedores que lá estavam, se reuniram na frente do portão de acesso do clube.
Da avenida Marquês de São Vicente, na mesma faixa de via onde estava presente com centenas de torcedores, presenciei o portão do CT ser aberto.
Repito, de onde estavam centenas de torcedores, do lado de fora, não pareceu ser invasão forçada, com o portão tentando ser arrombado ou destruído (o clube relata que foi quebrado). Nenhum torcedor tentou pular muro ou o próprio portão. Atitudes como chutes, socos, pontapés, que seriam dignas de repressão policial, também não foram vistas da avenida.
De qualquer forma, é um relato de cerca de 20 metros do local, onde havia uma massa humana na frente. Por isso seria importante o São Paulo disponibilizar às autoridades, imagens filmadas da sua segurança, para comprovar tal impressão. Se, ao contrário do que pareceu, for mostrado que tentaram vandalizar o portão, que os responsáveis nas filmagens sejam identificados e punidos.
Importante ressaltar: após a abertura dos portões, existiam seguranças do clube e policiais militares no CT. Nenhuma retaliação ocorreu, ou tentativa de impedimento. Foi possível ver, da avenida, que torcedores entraram tranquilamente pela alameda que leva ao estacionamento do centro de treinamento, em bloco, poucos correndo, maioria caminhando, sem agressões ou confronto algum.
Então adentraram gramado, campo de treino. Esta situação, ao meu ver, não deveria ter ocorrido jamais. Ali o protesto perdeu limites, sim. Porém, algumas considerações merecem ser feitas, a partir deste instante:
1) foram relatadas e vistas (em vídeo de celular exposto nas redes sociais) algumas leves intimidações a alguns jogadores: o monitoramento existiu, portanto, a identificaçãoindividualização de cada um que praticou ato de violência, é fundamental e deve ser exigida em forma de sanção. Bem como, punição aos responsáveis pela subtração dos poucos objetos que o São Paulo FC afirma terem sido furtados.
2) policiais militares estavam presentes no gramado também, andando entre os manifestantes. Nenhum registro de confronto ocorreu.
3) a ação de saída do gramado parece ter sido claramente ordenada pelas lideranças das organizadas e transcorreu, novamente, pacificamente entre torcedores e policiais, que lá estavam com viaturas do Batalhão de Choque.
Qual o saldo disso tudo?
Primeiro, a consolidação do conceito de que o protesto era legítimo, conforme as leis brasileiras.
Segundo, atos que ultrapassaram a ação pacífica do ato, devem ser investigados e responsáveis processados, sem generalizar toda ação.
O torcedor são-paulino não suporta mais anos de humilhação, consequência de gestões desastrosas e incapacidade de quase todos, dirigentes, treinadores e atletas, de honrar a tradição do time mais vitorioso do Brasil. Sempre existirão, claro, as boas exceções que entendem a dimensão do que é o São Paulo FC.
Raí, ídolo eterno, afirmou neste ano de 2016 que “falta alma”.
Falta muito mais, Terror do Morumbi, falta capacidade! Profissionalização, respeito.
Vivemos uma era de anos de poder perpétuo, com apenas uma sórdida dança de cadeiras, daqueles que o detêm.
Conselheiro expulso pode ser diretor, executivo que nunca ganhou nada em 4 temporadas, pode continuar fracassando na montagem de elencos.
Querem que quase 20 milhões de torcedores, fiquem calados diante de tamanho ataque à honra são-paulina.
Esta sim, a maior atingida, ao longo dos últimos anos.
Por fim, o apelo:
Que a instituição São Paulo FC não transforme o protesto legítimo dos seus torcedores (onde excessos devem ser duramente punidos) em cortina de fumaça e transferência de responsabilidade. Ao mesmo tempo, que excessos sejam punidos na forma da lei.
Não foi e não será o desabafo de centenas, ecoado por milhares/milhões, o responsável pelo futebol deplorável do São Paulo.
O problema não é perder, isto é do futebol. É como se perde.
Eliminações vexatórias como nunca vistas na história do Tricolor, ano após ano, seguem ocorrendo. Sejam para times de divisões inferiores, sejam para rivais históricos. Ninguém mais respeita o São Paulo, nem em seus domínios, pela administração lastimável do futebol do clube.
Deploravelmente, do terceiro mandato de Juvenal Juvêncio adiante. Aidar também sucumbiu nos gramados e escândalos e com Leco, a vergonha continua quando o Tricolor entra em campo.
Detalhe: falamos de 3 presidentes, JJ, Aidar e Leco. Os cargos diretivos que contribuem para tal situação lastimável, são formados, em sua maioria, pelas mesmas pessoas. Sobretudo, pós 2013, no departamento de futebol. Ressalte-se um viva, às boas exceções que realizam um bom trabalho pelo clube. Nem todos tem se demonstrado incapazes.
O final de 2016 segue perigoso e tenebroso para o Tricolor que amamos, na questão do risco ao rebaixamento.
Por isso bradamos, por isso, seguiremos lutando pelo resgate do São Paulo aos seus verdadeiros donos, a torcida!
Saudações Tricolores.
Carlos Port – Opinião Tricolor