Ricardo Gomes: o retorno do gentleman “francês”

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2009.

O São Paulo, mesmo sendo tri-hexa nacional, apresentava sinais de saturação, na relação Muricy e diretoria. Notadamente, Leco, o atual presidente tricolor. Bastidores da época evidenciavam esse desgaste, algumas notas na imprensa também.

Em abril daquele ano, o Tricolor caía no Campeonato Paulista, em mais um mata-mata diante de rival da capital, com seu capitão Ceni, contundido.

Dois meses depois, junho, mais uma eliminação nas oitavas da Libertadores, para outro time brasileiro (o Cruzeiro), de forma melancólica e apática.

Foi a gota d’água. Muricy demitido.

3 dias depois, outra derrota em clássico estadual.

O São Paulo havia começado o Brasileirão 2009 com 7 jogos e apenas 1 vitória. Chegou a estar na 16ª colocação.

Era o fim da segunda passagem de Muricy, após ter conquistado o inédito tri-campeonato consecutivo nacional. Marca até hoje inatingível.

Mas como o Tricolor superaria um técnico tão marcante e como a diretoria, muito criticada pela torcida na oportunidade (sobretudo, finado JJ e Leco), teriam uma saída?

A solução inesperada foi a contratação de Ricardo Gomes. Ex-jogador, campeão brasileiro, português e francês, depois técnico de carreira respeitada na França (campeão no PSG nos anos 90 e no Bordeaux em 2007), mas que estava totalmente fora do contexto dos favoritos ao cargo.

A chegada foi surpreendentemente positiva. A partir do quinto jogo comandando o Tricolor, iniciou uma reação arrebatadora no Brasileirão. 7 vitórias consecutivas, 8 jogos invicto.

Em 2008, o SPFC tirou 11 pontos do Grêmio para se tornar tricampeão. O ano do hexa. Milton Neves, mestre do rádio, começava a aludir a figura do Jason, o assassino que nunca morre, da série Sexta-Feira 13, ao Tricolor.

Em 2009, ocorreria novamente. Só que o Jason, dessa vez, viraria febre. Nascia um folclore. Foi quase oficialmente assumido pelo clube (não poderia por questões de direitos), a torcida ia com a máscara do vilão nos jogos, a fornecedora de material esportivo fez a camisa 13, com o nome Jason nas costas.

Porém, seria demais para os poderes instituídos do futebol, o São Paulo ser tetra consecutivo. Suspensões estranhas ocorreram, um dos rivais da capital entregou covardemente um jogo para o Flamengo, que disputava o título com a arrancada são-paulina, o Internacional e o declínio verde.

Aquele time, desacreditado, que tinha 11 pontos do líder, terminou apenas 2 atrás, na terceira colocação (empatado com o segundo no número de pontos).

Rogério Ceni, o capitão, em pelo menos duas oportunidades, credenciou a Ricardo Gomes a recuperação na temporada tricolor. Quando ainda estava machucado e queria ajudar e quando se recuperou.

A campanha de 2009 propiciou mais uma Libertadores. Só que o São Paulo, já “contaminado” com os conceitos arrogantes de “soberano”, ano a ano, não contratava à altura, após o hexa. Por exemplo, foram 4 Libertadores na sequência, sem o time ter um grande meia, ou aquele jogador de meio-ataque de impacto, que chamava a responsabilidade. Os rivais que eliminaram o São Paulo, sempre buscavam esse perfil de jogador. A arrogância trazia a conta. O Tricolor sempre ficava pelo caminho.

Em 2010, Ricardo Gomes ainda conseguiu ir longe demais. Semifinalista, caiu com vitória no último jogo. Eliminado pela questão do gol tomado fora. O pacote da diretoria para aquela temporada, apresentava nomes medíocres para o elenco tricolor. A política do bom e barato do tempo de Jesus Lopes e Leco. Exemplos: Leo Lima, Marcelinho Paraíba, Xandão, André Luís, Carlinhos Paraíba e Fernandinho. Como ser campeão da América assim?

Claro que nem tudo foram virtudes. Gomes tinha um perfil distante daquele que o são-paulino se acostumara com Muricy, usava pouco de variações táticas (ia no clássico 4-4-2 quase sempre), não oferecia poder de reação tática nas horas difíceis.

Ainda assim, a final quase veio. Mas o torcedor são-paulino estava impaciente demais, com a quinta eliminação consecutiva diante de rivais nacionais, na obsessão da Libertadores.

Foi demais para Ricardo Gomes, técnico que nunca teve um perfil muito vibrante ou carismático para a torcida. Mas era querido internamente, sabia trabalhar o psicológico, pela experiência vivida na Europa.

Nem Jason o salvou.

2016.

Novamente, de forma surpreendente, Ricardo Gomes volta, 6 anos após, ao São Paulo.

Podemos dizer que venceu muito mais que a Copa do Brasil, em 2011.

Venceu um AVC hemorrágico para voltar a profissão, feito notório e digno de aplauso. O amor ao futebol não o fez desistir. A maioria esmagadora, desistiria.

Ocorre que o futebol brasileira vive crise tática, técnica e de defasagem em seus treinadores. A pressão no Morumbi é imensa, Ricardo Gomes já teve um episódio grave.

Sinceramente, desejo boas-vindas, mas espero que a diretoria ofereça uma comissão técnica mista a ele. Não descarte Jardine, tão fundamental na transição base-profissional, pedido desde Luiz Cunha, diretor que não resistiu ao status quo da perpetuação do poder e da falta de hierarquia.

Ofereça também, acima de tudo, condições de trabalho que não mesclem tanto alguns bons jogadores, com medíocres de série B e divisões ainda menores, característica marcante dos anos de Gustavo Vieira de Oliveira, como executivo de futebol. Nem contratos relâmpago de curta duração, que não permitam planejamento.

Ofereça, acima de tudo, uma diretoria sem cargo que não deveria estar preenchido, com conselheiro expulso.

Ofereça, por fim, o caminho para a profissionalização.

No mais, boa sorte “francês”!

Vai precisar!

Saudações Tricolores!

 

Carlos Port

Opinião Tricolor